Hoje foi um dia totalmente atípico, seja porque tudo aconteceu de forma inesperada, seja porque tudo que aconteceu depois continuou sendo inesperada, mas num bom sentido. Não perderei tempo explicando o que deu errado, porque se deu, f***-se . Nada mais animaria meu dia se não uma ligação no finzinho da tarde. Meu pai agora não é mais só um bacharel em direito, é um advogado. Peguei-me pensando então o orgulho que eu sentia, não só por ter passado, mas por ser meu pai. O mesmo orgulho que sempre brota timidamente quando o olho nos olhos e vejo o cansaço, mas o mesmo brilho que vejo nas fotos segurando um bebê risonho ao volante de nossa antiga chevy azul, mas dessa vez o orgulho resolveu gritar e dizer que esse poderia ser um dos momentos mais importantes da vida dele, abracei, chorei, sorri. Podem dizer que sou sensível demais, alegro-me por isso, mas eu afirmo que não tem sensação mais eufórica que ver o sonho de alguém que você ama desde que se entende por gente realizar-se. Foi a mesma sensação de ver o nome da minha mãe entre os aprovados de pedagogia. Todos perguntam se é porque meu pai fez direito que também estou fazendo, sempre prontamente respondo que não, mas a verdade é que sim! Sempre fomos cúmplices de pequenos delitos dentro de casa, desde aquela porcelana que quebrei até a vez que me ajudou a esconder da mãe por 2 semanas um machucado que contrai andando de skate. Não só cúmplices, amigos que jogam futebol e todo esporte com bolas nos domingos à tarde, professor e pupilo que conversam sobre história e política, mestre e aprendiz que fazem traves os melhores presépios da região. Escolhi também fazer direito por ele, mas não porque ele queria, mas por descobrir que inevitavelmente sou como ele, cresci e aprendi com ele, e como minha mãe diz: “se fosse menino não seria tão agarrada”. Euforia sim, porque sou alguém com 100% de freqüência, não saio de aulas péssimas nem para tomar água e tenho pena de deixar os professores sozinhos na sala. Apresentei aquele trabalho ruim e fui aproveitar o restinho do dia 6 com o mais novo e preferido advogado. Vou impressioná-lo hoje, pensei. Todos os ingredientes, panelas ao forno para fazer o meu “Penne à Carbonara” presente somente em refeições supra-especiais, bom, acabou o gás. Enfim, restou aquela Bohemia gelada com aquele copo de cristal que estava no freezer, ah, esqueci, você tomou ela ontem. O que importa meu prato-só-para-ocasiões-especiais ou sua cerveja favorita, nossa empadinha pré-assada com um suco Tang de uva teve o melhor gosto que qualquer empada com Tng que já comemos em toda a nossa vida teve. O que importa é a cumplicidade que temos, nossos olhos se entendem, brigam, faíscam, mas o fazem para não perder o contato. Parabéns, meu pai e sempre herói.
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